Que Mario?
Quem joga, sabe
A experiência cinematográfica de ‘The Last of Us’
Um dos melhores jogos de PlayStation 3 volta remasterizado para o PS4 e se torna o melhor jogo do console até agora
25/08/2014 | 18h58
Por Luiz Fernando Toledo

“Que filme é esse? Qual seriado você está assistindo?” Estas foram as perguntas que mais ouvi de colegas enquanto jogava a versão remasterizada de The Last of Us para PS4. “É jogo”, respondi inúmeras vezes, sabendo de antemão que seria questionado sobre como um game desta geração poderia ser tão similar à sétima arte. E nem dava para rir dos comentários: os jogos chegaram a um patamar de entretenimento muito semelhante ao dos filmes.
Depois do sucesso estrondoso e das inúmeras premiações, os fãs puderam apreciar gráficos melhorados de The Last of Us em seus PS4 neste ano – desta vez, disponível em resolução 1080p. Mesmo para quem já havia explorado cada canto obscuro do suspense que mais se parece com alguma temporada da série The Walking Dead, repetir a jogatina é uma das experiências mais divertidas e interessantes – assim como assistir ao filme pela segunda vez para captar novos detalhes. Este, como poucos, consegue prender o jogador num universo complexo de maneira tão forte que, ao final, a saudade dos personagens faz com que o replay ocorra com mais facilidade do que em qualquer outro jogo linear (sem mundo aberto para exploração).
A história é aquela já conhecida por todos (e até batida como trama principal de inúmeros jogos e filmes): a humanidade foi infectada por uma espécie de fungo que transforma o mais gentil dos rapazes em um faminto zumbi assustador. Pouco a pouco, as formas de vida começam a desaparecer da Terra, até que os pequenos grupos que continuaram vivos começam a se degladiar em busca de comida, armamentos e abrigo. Apesar da grande leva de zumbis de todos os tipos, logo o jogador perceberá que outros humanos são seus piores inimigos.

Na maior parte do tempo, controla-se Joel, um sobrevivente que perde a filha logo no início da trama. Ao longo da história ele se encontra com Ellie, uma adolescente que precisou amadurecer antes do tempo para sobreviver ao fim do mundo. Sarcástica e bem humorada, a jovem conquista o protagonista durão e seco a cada cena.
Um dos pontos mais interessantes no enredo do game é a forma como as falas foram colocadas. Durante a caminhada entre um ponto e outro, os personagens dialogam sobre suas vidas, contam curiosidades e até coisas sem importância. Foi uma ótima sacada dos roteiristas: geralmente em áreas muito grandes ou complexas – aquelas em que todo mundo fica entediado – somos agraciados com pequenos flashes da vida dos personagens. Joel, por exemplo, diz que sabe cantar. Em outro momento, conta que foi casado. Em um mundo devastado pela solidão e por cenários infinitamente vazios, ouvir uma voz amiga acaba sendo uma das sensações mais reais do game.

A ação de The Last of Us é muito semelhante a outra franquia bastante conhecida da Naughty Dogs – a trilogia Uncharted. Os primeiros minutos do game fazem lembrar imediatamente o controle de Drake na terceira edição do game. Personagem em terceira pessoa, golpes corpo-a-corpo e um arsenal de armas coletadas ao longo da história. A furtividade (stealth) é um fator divertido: é possível passar por diversos cenários sem entrar em guerra com todos os inimigos, mas matando um a um com facas ou tiros na cabeça, por exemplo.
Passar de um cenário a outro não traz dificuldade – os obstáculos são bastante óbvios e nunca há mais de um caminho para se chegar ao objetivo. Em alguns locais, chega a irritar a forma como foram inseridos “desafios” sem sentido. Muitas vezes, é preciso levar uma escada do ponto A ao B, sendo que seria possível subir sem o objeto, mas o jogador é obrigado pela mecânica de progressão do game. As ações na água são horrorosas, como praticamente em todo jogo.

As batalhas são bastante inovadoras e podem ser superadas de inúmeras maneiras – outro ponto fortíssimo de The Last of Us. Se assim não o fosse, o jogo perderia seu brilho, já que boa parte dele ocorre no campo de guerra. É possível atrair todos para um só lugar e jogar uma granada, atirar uma bomba de fumaça e fugir, sair metralhando à la Rambo ou ainda matar todo mundo na porrada com um pedaço de madeira. Dá até para usar arco e flecha. A boa quantidade de armamentos e a possibilidade de unir objetos encontrados pelos cenários reforçam este quesito. Ao combinar uma tesoura e um taco, por exemplo, obtém-se uma espécie uma arma que perfura a cabeça dos zumbis e os mata com apenas um ataque.
Nos níveis fáceis o jogo pode ser terminado praticamente sem mortes. Mas vale a pena testar o modo mais desafiador do game. As armas desaparecerão do cenário e quase sempre será preciso fugir dos monstros sem matá-los, o que torna a ação frenética e até assustadora: prepare-se para tomar muitos sustos. Mais do que naqueles filmes de terror trash do Netflix.

Quebrando a cabeça
Talvez a parte mais chata de The Last of Us sejam os puzzles. Pode ser apenas questão de gosto, mas depois de inúmeras cenas de ação e com a história em pleno vapor, torna-se insuportável descobrir como abrir uma porta qualquer enquanto o jogador poderia simplesmente estourá-la com um chute – ou com os tantos revólveres e pistolas que ele guarda na mochila.
Conforme os fatos são colocados ao espectador, a vontade de jogar só aumenta. Mesmo quem não tem o controle na mão quer ficar próximo – exemplo destes colegas que me perguntaram qual filme eu assistia. E depois que tudo acaba e os créditos sobem na tela?

The Last of Us: Left Behind
É aí que entra uma pequena vantagem do PS4: foi disponibilizada uma “side story” de Ellie. No pequeno episódio, o DLC Left Behind, dividido em dois momentos distintos, o jogador descobre como a garota foi mordida por um dos zumbis – mas não ficou infectada. A jogabilidade é a mesma, mas com enfoque na exploração do cenário e da história, com menos momentos de tiroteio.
O primeiro deles é uma experiência quase contemplativa – o jogador atuará bem menos que na aventura principal. Ellie e sua amiga Riley circulam por um shopping desativado depois de fugir do quartel do exército e têm poucos minutos da vida que toda menina de 13 anos deveria ter. Há uma sequência de mini-games que exploram o lado “teenager” das personagens, como brincar em um carrossel ou fazer selfies em uma máquina. É o contexto de quem já passou por toda a história de The Last of Us que faz do DLC uma atividade sensacional – o próprio jogo recomenda que só se parta para esta fase depois de zerar a trama principal. Uma das cenas, talvez a mais comovente, mostra Ellie de olhos fechados fingindo que joga um fliperama desativado, enquanto Riley narra o “movimento” dos personagens. Há ainda um “mata-mata” entre as duas com arminhas de água.
A segunda ação ocorre entre as partes “outono” e “inverno” da história principal – aquela em que Joel está gravemente ferido. Foi uma boa resposta ao intervalo perdido desta parte do game, que não mostra exatamente como ele se recuperou e de onde a garota tirou remédios para curá-lo em uma cabana no meio do nada. Nesta, as batalhas são frenéticas, principalmente a última – são inimigos por todos os lados em um cenário enorme.
Valeu a pena?
The Last of Us foi um dos melhores jogos do PS3 e já deve estar garantido na estante de muitos sortudos com um PS4. Com o baixo número de lançamentos até agora, pode-se até dizer que figura como a melhor experiência dos detentores do console da nova geração por um bom tempo, que nem Watch Dogs supera.
Título: The Last of Us e The Last of Us: Left Behind
Desenvolvedora: Naughty Dog
Plataformas: PS3 e PS4
Preço: R$ 100 (The Last of Us/PS3) e R$ 31 (Left Behind)
/Luiz Fernando Toledo
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