Bitcoin: uma solução em busca do problema

Guilherme Horn

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O Bitcoin é a moeda virtual mais conhecida hoje no mundo. Embora existam centenas de moedas virtuais, o Bitcoin tornou-se a mais relevante, a mais usada no mundo digital.

O Bitcoin foi lançado em 2009, através de um artigo assinado por Satoshi Nakamoto, cuja identidade até hoje não foi revelada. Suspeita-se que o autor da engenhosa criação seja, na verdade, um grupo de pessoas. Alguns testes comuns na área de qualidade de software já detectaram cinco formas distintas de se escrever os códigos do sistema, o que indicaria possivelmente cinco diferentes desenvolvedores. O fato é que o Bitcoin é de uma genialidade rara, pois foi criado em cima de uma rede, chamada Blockchain, que permanece inviolável desde a sua criação em 2009, mesmo sendo aberta para a comunidade de desenvolvedores, tornando-se um código tão seguro como talvez nunca se tenha visto na história desta indústria. Mas Blockchain será tema de um post específico posteriormente, vamos voltar ao Bitcoin.

Os entusiastas do Bitcoin acreditam que ele pode se tornar um padrão de transferência de moedas na Internet. Algo como o email se tornou para mensagens, cruzando fronteiras de países, culturas, economias.

O Bitcoin é gerado a partir de um processo chamado mineração. Funciona da seguinte forma: você faz o download de um programa gratuito e, com o seu computador conectado à Internet, começa a executar este programa. Este programa vai fazer cálculos matemáticos complexos com a finalidade de gerar Bitcoins. Este processo chama-se mineração. Ao final de alguns dias você terá gerado algumas frações de Bitcoin. Este programa foi tão bem desenvolvido, que ele levou em consideração a evolução dos custos de hardware e energia elétrica no tempo, de forma que, a cada novo Bitcoin gerado, o programa aumenta a complexidade dos cálculos que faz e demora mais tempo para gerar novos Bitcoins. Caso contrário, qualquer pessoa com muito dinheiro poderia comprar centenas ou milhares de máquinas e dedicá-las apenas à geração de Bitcoins. Esta operação hoje é desfavorável em países como o Brasil, com alta carga tributária para as máquinas, alto custo de banda larga e de energia elétrica. Ou seja, o que se gasta para gerar um Bitcoin é mais do que o valor em que ele está cotado (cerca de R$1.700).

Uma vez minerado, o Bitcoin pode ser guardado numa carteira no seu computador, num pen drive, num aplicativo no smartphone ou num serviço na nuvem. Afinal de contas, ele é apenas um código cheio de letras e números. Se você o colocar num pen drive e o perder, alguém pode usá-lo, da mesma forma que se você perder a sua carteira com notas dentro dela.

A esta altura você deve estar se perguntando: mas quem determina a cotação do Bitcoin? Muito simples, o mercado. O Bitcoin tem um limite de emissão, que é de 21 milhões de Bitcoins. Quando ele for atingido ninguém mais emite (minera) Bitcoins. A cotação dele flutua conforme as leis de mercado. Como não há um lastro para ele, isto é, algum ativo que lhe dê garantias, e não há também nenhum Governo ou Banco Central por trás, ele flutua livremente no mercado. Já atingiu cotações muito altas e muito baixas conforme as ondas de credibilidade e adesão pelo mercado. E alguns analistas acreditam que ele vá se estabilizar, no longo prazo, no patamar de U$400.

E para que, de fato, ele serve? Aqui vai uma reflexão interessante, onde devem ser levadas em consideração as caraterísticas das diferentes economias. Nos EUA, onde o Bitcoin tem tido mais adesão, vejo dois fatores muito importantes: 1) o sistema bancário tem um outro padrão de eficiência, muito diferente do nosso. Uma transferência de valores entre bancos pode levar até cinco dias. Não existe TED, como aqui no Brasil, em que o dinheiro leva um segundo para ir de um banco a outro. Neste caso, o Bitcoin é disruptivo, porque transfere-se dinheiro de uma pessoa para outra em segundos; e 2) com a baixa taxa de juros e inflação estável há decadas, qualquer centavo a mais ou a menos nas transações comerciais ou financeiras faz muita  diferença. Quando você paga com cartão de crédito ou débito, há uma taxa embutida, que nos EUA hoje, em média, é de 2,70%. Com o uso do Bitcoin, esta taxa pode ir quase a zero! E isto tem um impacto violento na economia.

Quando olhamos para o Brasil, estes dois fatores perdem relevância. No primeiro caso, temos um sistema bancário altamente eficiente para transferências de dinheiro. E, no caso das taxas cobradas pelos intermediários, elas são facilmente absorvidas por uma cultura de precificação ainda baseada nos tempos de inflação. Os preços aqui não variam conforme seus custos. Reduções de custos obtidas por aumento de eficiência ou desenvolvimento tecnológico normalmente se transformam em aumento de margem ao invés de preços menores. O consumidor brasileiro já está habituado a reduções de embalagens para que não se mexa nos preços, liquidações em cima de preços previamente majorados e outras artimanhas que nos levam descrença quando o assunto é transparência na precificação de mercadorias.

Talvez por isso o Bitcoin não tenha tido a adesão que muitos imaginavam no Brasil. Ele é uma solução que não encontrou o seu problema.

 

 

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