A reinvenção da Microsoft

Dois anos depois de Satya Nadella assumir a liderança, a gigante do software colhe os primeiros frutos da estratégia focada em serviços de computação em nuvem

Bruno Capelas e Claudia Tozetto - O Estado de S.Paulo

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Quando o indiano Satya Nadella assumiu o cargo de presidente executivo da Microsoft, em fevereiro de 2014, a companhia por trás do Windows vivia em meio a um tormenta que já durava alguns anos. Atropelada pelo avanço exponencial dos dispositivos móveis (leia mais abaixo), a Microsoft havia falhado em suas investidas mais importantes: o Windows 8, primeira versão do sistema ajustada para operar em tablets, enfrentava fortes críticas e os smartphones com Windows Phone não emplacavam como alternativa aos rivais. Dois anos depois, os desafios ainda são muitos, mas a nova gestão da Microsoft começa a dar os primeiros resultados.

“O preço das ações da Microsoft subiu de cerca de US$ 40 para pouco mais de US$ 50”, diz o professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP), Fernando Meirelles. “Outros papéis não tiveram a mesma valorização no mesmo período.”

Sob nova direção: na gestão Nadella, Microsoft alcançou receita anual de US$ 93,6 bilhões Foto: JASON REDMOND | REUTERS

O aumento do preço das ações e a consequente recuperação do valor de mercado da Microsoft (veja gráfico abaixo) são a principal prova do otimismo dos investidores em relação ao futuro da empresa. Contudo, segundo analistas consultados pelo Estado, tantas mudanças podem terminar transformando a Microsoft em uma empresa bastante diferente da criada por Bill Gates e Paul Allen em 1975.

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Líder no mercado de PCs, a Microsoft roda o Windows em nove de cada dez máquinas em operação no mundo, segundo a consultoria NetApplications. Mas o cenário que manteve a empresa numa situação confortável por décadas mudou: os consumidores passaram a preferir os smartphones em vez dos PCs, o que impactou diretamente na “saúde” do seu carro-chefe. “É improvável que a Microsoft volte a ter a dominância de mercado que tinha com o Windows no passado”, diz o vice-presidente da consultoria Forrester, Frank Gillett.

Os números mais recentes do mercado de PCs corroboram a afirmação. Segundo a consultoria IDC, as vendas de computadores fecharam 2015 com volume global abaixo de 300 milhões de unidades pela primeira vez desde 2008. No Brasil, o resultado, agravado pela crise econômica, foi ainda pior: as vendas de PCs caíram 36% para 6,6 milhões de unidades, o pior resultado em dez anos.

Apesar do mercado em queda, a Microsoft lançou o Windows 10, versão mais recente do sistema operacional, em julho do ano passado. A atualização foi liberada de graça e teve a adoção mais rápida da história: até agora, mais de 300 milhões de dispositivos já utilizam a nova versão do software – a empresa não revela qual a fatia de PCs, smartphones e tablets no total. A empresa espera alcançar 1 bilhão de usuários ativos do Windows 10 até 2018.

“Nós também estamos reinventando o Windows”, diz a presidente da Microsoft Brasil, Paula Bellizia. “A queda na venda de PCs é relevante, mas este mercado está se transformando em um segmento de múltiplos dispositivos.”

Nuvem. Se o mercado de PCs está em queda e a guerra pelos smartphones está praticamente perdida, o que fazer? Depois de fazer mudanças na cultura da Microsoft, a saída encontrada por Nadella foi colocar a computação em nuvem no centro da estratégia da Microsoft – tanto para empresas, que respondem pela maior parte da receita, como para os usuários domésticos. “Nadella tomou decisões arriscadas, mas se deu bem ao criar essa grande infraestrutura de nuvem”, diz o vice-presidente de pesquisas do Gartner, Adam Woodyer.

Ele se refere à plataforma da empresa que usa o poder de processamento e capacidade de armazenamento de vários data centers conectados por meio da internet. A infraestrutura permite que a Microsoft possa prestar serviços para empresas – que vão de armazenamento a software de inteligência de negócios – além de serviços para uso doméstico, como o Office 365. “Ela passou a competir no que mais importa, que são os serviços na nuvem para pessoas e empresas”, diz Gillett, da Forrester.

Em seu último balanço financeiro anual, os resultados da estratégia na nuvem já são visíveis. Só em 2015, a Microsoft já conseguiu gerar US$ 10 bilhões só com serviços em nuvem – mais que o dobro dos US$ 4,4 bilhões registrados no ano anterior. “Eles saíram do zero há alguns anos e agora têm um grande mercado”, diz Woodyer.

A recuperação não significa que a Microsoft estará a salvo. A empresa terá de competir diretamente com gigantes como Amazon, Google e IBM, que estão buscando inovações em suas ofertas de serviços baseados na nuvem, em especial para empresas. “Há uma grande disrupção no mercado de TI”, diz Woodyer. “Pode ser que alguns dos concorrentes da Microsoft nem tenham surgido ainda.”

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